Às vezes eu tenho a impressão de que tudo não passa de um filme. Como se eu fosse uma espectadora entediada com um pote de pipocas e uma lata de refrigerante, com as pernas estiradas por cima da poltrona de um cinema e a expressão de quem está achando tudo muito previsível.
Como se tudo o que está aqui e agora já tivesse sido programado por uma inteligência superior que observa e ri dessa tragédia existencial.
Mas talvez eu só esteja projetando a culpa em outrem. Talvez eu só esteja aliviando a minha própria responsabilidade na arte da inatividade. A arte de observar os dias passarem como um coelho prestes a ser atropelado na beira da estrada. Estou ficando boa nisso.
Eu deveria agir, certo? Mas "deveria" também me parece uma palavra estúpida demais. Ela me remete a algo fixo, algo que não pode ser contestado, ainda que nem mesmo tenha acontecido. "Eu deveria agir" me soa como uma necessidade de autoafirmação puramente egoica, e não é isso que eu quero.
Talvez eu devesse parar de projetar. As projeções me levam a ter expectativas sobre coisas que ainda nem mesmo aconteceram. E então eu simplesmente paraliso diante de meras possibilidades, e olha só! Aqui está a nossa querida inatividade novamente. Mas seria mesmo "inatividade" se são somente ideias de ações sobre coisas das quais não tenho o mínimo controle? Será mesmo que não é apenas a minha ansiedade se disfarçando por outros meios? O "dever agir" me soa forçado. Como uma obrigação autoimposta sobre a qual, na realidade, eu não tenho muito interesse.
Talvez o caminho mais agradável seja o de "deixar as coisas fluírem naturalmente". Com isso eu não estaria sendo guiada por manifestações disfarçadas da minha ansiedade e nem mesmo atormentada pelo "dever agir" como uma mera necessidade de reconhecimento e aceitação. As coisas só se tornarão entediantes se eu permitir que esse desassossego mórbido, que se remexe por autoafirmação, mas porém não quer ser flagrado em seu completo entorpecimento e busca por autoproteção, me domine.
Acho que estou presa em um paradoxo mais uma vez.