Não sei direito o que escrevo porque a música está bem alta em meus ouvidos e parece que escrevo quase sem pensar. Gosto de escrever assim às vezes, como se a escrita fosse quase uma saída da escrita, um amontoado de palavras voando e um grande planeta azul ou quem sabe Saturno me guie de volta a casa. Sim, dizem ser o planeta dos melancólicos e eu gosto dessa imagem. Saturno é o último planeta visto a olho nu, o mais distante que a vista humana alcança sem o auxílio de qualquer tecnologia. Oh, distante Saturno, me guie de volta ao grande mundo. Me leve a passeio com seus aneis, me deixe voar. É nessas horas em que a música parece nem sair mais do fone, parece mesmo entrar por todo o corpo e que parece já que eu nem sou mais essa pessoa nessa cadeira neste quarto nesta casa nesta cidade. Todos os bairros são os mesmo e o mundo é uma coisa louca. À procura de pequenas lucidez por toda parte, pequenas luzes. Oh, nada faz sentido e gosto de escrever assim meio doida. Estou quase chorando, Saturno, quase chorando porque a música que me chega é demasiado humana que é divina. É certamente uma mensagem além mar, além horizonte. Como se uma grande força nos chegasse parcamente, sim, mas ainda assim um suave toque de doçura a dizer "oh, sobrevoe essas ruas, esqueça os mapas e as linhas divisórias". E penso nela, é inevitável, com toda doçura que há. Sim, espero também que ela sinta isso. Essa vontade louca de voar, de dizer "eu existo". Oh, de dizer não mas de sentir em todas as células: eu existo. Essa música quando vai acabando já me bate uma doce tristeza. E aí coloco de novo e parece que bebi um grande gole de vinho. Esse texto não existiria de outro modo a não ser nessa música. No silêncio seria incapaz de dizer isso, de sentir-me assim. Reinicio de novo pra ver até onde vou com isso. Oh, pequena canção, você hoje teve em mim caráter de salvação. Sim, aquelas coisas que nos chegam em salvação. Uma mão esticada ao escuro pedindo que por favor me segure, estou caindo, estou caindo... Saturno, você está longe demais para ver-lhe, me socorra. Venha em meu alento pois minha alma chora. E nessa manhã tem essa música, tocada há tantas décadas atrás mas que hoje me faz sentir que estou de volta ao mundo, que de novo é possível sentir este espaço que agora se abre docemente. Um pequeno quarto cujas janelas se desfazem e um longo voo atravessa a vidraça. Querida, eu gostaria apenas de dizer apenas que se eu pudesse desejar algo nesse instante é que você, onde estiver, com quem estiver, sinta isso que agora me vem ao coração. Que sinta essa coisa tão grande e doce, essa inominável palavra que não encontro porque não existe. Gostaria apenas que você sinta isso hoje. Repentinamente, que distraidamente se tu tiveres a olhar o pôr-do-sol ou a tirar foto de flores, que sintas de repente como uma grande alegria a te tocar. Abraçar-te toda, como um grande planeta dentro do peito. Se você estiver a ler isso, saberá que digo de você. E no entanto, no fundo espero que não leias. Que apenas tu sintas isso também, em algum momento, essa grande força a te abraçar, como eu sinto agora.