"Eu não sabia nada. Levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que meu corpo. Aquele Sérgio, de Raul Pompéia, entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando a virgindade. Eu não: era sabendo de tudo, era adiantado nos anos, que ia atravessar as portas do meu colégio.
Menino perdido, menino de engenho."
Essas são as últimas linhas de Menino de Engenho, escrito por José Lins, conterrâneo nordestino, no auge da segunda geração do modernismo brasileiro. Essas últimas palavras atravessam a alma e dilaceram o coração, fechando-se o ciclo de mais uma história. Em partes, escrevo essa resenha pela memória afetiva que esse livro me remete, afinal, eu também cresci em meio a um engenho. Entre tachos de melaço, com as abelhas presas nos meus cabelos, correndo em círculos pelas máquinas de moer cana-de-açúcar, o engenho pequeninho do distrito de Muniz Ferreira preencheu meus pensamentos enquanto eu caminhava com Carlos pelo engenho recifense. Mas, claro, Carlos foi muito mais aventureiro que eu... A outra parte que justifica a escrita dessa resenha corresponde ao meu desejo de conhecer mais escritores nordestinos, acompanhar o processo de escrita de uma região que produziu grandes nomes da literatura brasileira e latino-americana. Hoje, meu Nordeste passa por um período de injúria, mas suas conquistas, passadas e futuras, reluzirão em meio a escuridão do ódio e do preconceito.