Fico pensando: será que teria gostado de Mary Poppins se fosse mais nova?
Em plenos dezoito anos resolvi me permitir ler essa obra e nem mesmo sei porquê. Porém, é inevitável me questionar se a minha idade me influenciou a não gostar nem um pouco desse livro. Não ocorreu a mágica da literatura em momento algum; meu coração não disparou e minha alma não dilatou para receber essas novas histórias dentro do meu ser. Quando li a Fantástica Fábrica de Chocolate, toda a minha infância transcorreu por meus olhos, escorreu por meus dedos: eu vi, eu senti. Matilda foi a mesmíssima experiência, tanto que se tornou um dos meus livros favoritos da vida, o primeiro livro que quero ler para os meus filhos, porque é a minha história do coração. Mas Mary Poppins, nada aconteceu.
"Somos um só, todos rumando para o mesmo final. Lembre-se disso, mesmo quando você não se lembrar mais de mim, minha criança." Essa é uma frase impactante da conversa da Hamadríade com a Jane. É sobre morte, sobre a consciência de entender que todos teremos o mesmo final, todos conheceremos a morte, cedo ou tarde. "Pássaro e fera e pedra e estrela, somos todos um só, um só" Esse diálogo é profundo pois representa algo que deveria ser óbvio: somos feitos da mesma matéria. "Criança e serpente, estrela e pedra... todos um só."

Esquecer é uma das palavras mais usadas durante o livro, claro, seguindo a minha percepção. O passarinho pergunta aos gêmeos se eles irão um dia esquecê-lo. A estrela Maia pergunta a Jane e Michael se eles irão esquecê-la... Acho que esse é o principal tópico da P.L, o sentido da infância e todas as memórias que deixamos para trás. Ao crescer, nos desvencilhamos de toda inocência e compaixão típica de uma criança, nos tornando mais frios, calculistas e antipáticos. Perdemos nossa essência ao sair da infância. Nos deixamos para trás.
Eu ainda acho a Mary um pouco narcisista e bipolar, mas acho que, mesmo com toda grosseria, ela ensinou valiosas lições as quatro crianças: empatia e amor. Cada viagem é em direção ao novo e eles sempre estão abertos para isso, sempre abertos para a diferença.
E o mesmo vento que trouxe Mary Poppins, a levou...
"Ela é. Ela é a senhora de nosso mundo, a mais sábia e terrível entre todos nós"