Tudo ainda parecia intocado. Os mesmos carvalhos - altos, majestosos e imponentes; a mesma relva - rala, mesclada em tons de dourado e verde musgo; a mesma brisa fria do final de outono daquela região; o mesmo canto dos pássaros e sussurrar dos insetos, complementados com o som distante e abafado da cachoeira que ali perto se encontrava.
O velho balanço de madeira que meu avô outrora havia feito para mim ainda se encontrava pendurado no galho da árvore mais alta e volumosa daquele bosque. Suas raízes possuíam minha espessura e sobressaíam sobre a terra. Costumávamos a chamar de árvore-mãe e dizer que havia um espírito da floresta morando em seu interior.

Senti como se tivesse voltado a minha infância. Ela estava novamente a meu lado, com seu vestido branco, que sempre acabava com manchas de terra até o fim do dia; o cabelo sépia com cachos longos e pesados semi-presos com uma trança, e seu olhar ambar que parecia ler minha alma.
Tudo voltava a memória como um trem-bala. As tardes de janeiro que passava com meus amigos da vizinhança, fingindo ser heróis. Costumávamos decolar no balanço como se tivéssemos o poder de voar. Eu era o cavalheiro do bosque, sempre com uma vassoura que eu chamava de cavalo e um chapéu de jornal na cabeça; e ela a fada guardiã, correndo com uma asa nas costas que sua mãe havia costurado com tule e arame.
Aquela noite estávamos determinados a vigiar a árvore-mãe a fim de ver o espírito da floresta em ação, que ela jurava existir e ser o responsável pela revitalização das estações. Saímos de casa escondidos durante a madrugada carregando lençóis, travesseiros velhos, cordas, lanternas e luzes de natal.
Construímos um castelo de pano de frente com as raízes da árvore e passamos a noite a seus pés iluminados pela luz amarelada das mini-lâmpadas. Ela me contou seus sonhos. Queria ser escritora ou artista, para que então o mundo soubesse de toda a magia que vivia naquele bosque. Não me lembro de ter visto o espírito da floresta, mas sem dúvida aconteceu algo extraordinário naquela madrugada. Eu adormeci com o orvalho e os vaga-lumes vagando ao meu redor. A última coisa que me recordo antes de ter fechado os olhos foi o brilho das estrelas, que estavam magníficas naquela noite.
Essa é a última lembrança que tenho dela. Não me recordo de tê-la encontrado ao amanhecer, ou no dia seguinte, ou no mês consequente. Não me lembro da notícia de sua morte ou desaparecimento, nem de sua família estar de mudança - não me lembro nem mesmo de seus rostos.
Contudo, nesse velho cenário, sinto sua presença mais viva do que nunca. Sinto o castelo, os vaga-lumes, as estrelas cantarem, minha armadura de cavaleiro. Abro os olhos. Já é noite e o único som é o farfalhar dos grilos. Desço do balanço e pego a estrada para casa, me perguntando se sou um adulto recordando as brincadeiras fantasiosas da infância, ou uma criança adormecida sob uma árvore sonhando com uma vida de adulto onde espíritos da floresta não existem.