Desde crianças, quando inciamos a alfabetização, fomos ensinados a contar, escrever nosso nome e desenhar árvores. Quando passamos para o fundamental I as palavras eram mais longas, cobravam uma boa caligrafia, uma série de decorebas sobre sua região, estado e país. No fundamental II a matemática se tornou mais complicada, deveríamos saber os planetas que compõe o sistema solar de cor, surgiu a química e a física. No ensino médio, descobrimos álgebra, sociologia, filosofia e a pressão para ser algo que não sabíamos o que era. Todos esses acontecimentos constituem o passado e a incerteza do mesmo; foram acontecimentos que tiraram o meu sono, mas não me incomodam (inclusive, álgebra).
Fazendo uma volta ao passado ao som de Abba, penso sobre o futuro do meu país que será descoberto amanhã. Estou de volta à 1500, sou um índio, observo a frota portuguesa se aproximar do meu litoral. Vejo essa mesma frota, centenas, milhares de portugueses invadirem meu território e eu não posso fazer absolutamente nada; não estamos no mesmo nível de maldade. Eu caço para sobreviver; vocês por puro prazer. Respeito minha tribo, minha natureza, meu solo, minha água... Vocês destroem tudo que tocam. Estupram meu povo, matam meus irmãos... E eu não posso fazer nada. Agora sou negro africano, líder de alguma tribo africana. Sou capturado e me torno refém dos portugueses outra vez. Sou obrigado à trabalhar para brancos; me catequizam, estraçalham minhas origens, perco minha identidade. Volto ao Brasil na década de 60; sou estudante, pobre, periférico. Corro da polícia que quer nos calar, uma bala na cabeça me impede de prosseguir. Sou morto pela terceira vez por essa nação. Regresso ao Brasil em 2018, sou homossexual, transgênero, pobre, favelado, estudante de escola pública, trabalhador assalariado, boia fria no nordeste, ambulante no sudeste. Voto amanhã, decido o futuro desse país. Brasil, não me mate outra vez!