Começo essa narrativa dizendo que não indico o que estou prestes a fazer para ninguém. Poderia classificar essa ideia como algo estapafúrdio e que não dará em nada, mas os sonhadores costumam ser assim: reclamar incessantemente enquanto prosseguem com uma esperança disfarçada em meio a tantas reclamações que na verdade significam claramente “dê-me um sinal verde! Diga que não estou sendo um idiota”, quando na verdade estão sendo declaradamente idiotas.
Eu me encaixo perfeitamente nessa descrição. Ouso dizer que sou feita de contradições que juntas formam um amontoado de coisas confusas e que tenho dificuldades para descrever. Mas ao mesmo tempo, existe essa contradição ainda mais contraditória do que todas as outras: sou eu quem vos falo. Eu sou a principal personagem, e sendo assim, mesmo que em pequenas parcelas, conheço parte da tempestade da qual faço parte.
A ideia deste depoimento é tentar desvendar o que há para além da tempestade, uma tentativa desesperada de aclarar e desmistificar a ansiedade que me domina cada minúscula parte do corpo. A ideia deste depoimento é tentar curar a mim mesma.

1. 22/02/18 – Foi um dia estranho. Um dia agridoce. Uma mistura confusa de tormenta e calmaria, ambas perfeitamente entrelaçadas. Como se dançassem coladas uma a outra. Eu pratiquei o ritual repetitivo que li em alguns sites, aquela velha história de tentar impor a calma a uma mente naturalmente ansiosa; a uma mente que aparentemente não tem motivos para tamanha angústia, mas que mesmo assim a sente profundamente. Ironicamente, no ato de tentar me acalmar, acabei me tornando ainda mais nervosa ao perceber que eram tentativas falhas que resultavam em nada.
E então eu subitamente me esquecia do alvo em questão: a minha própria mente ansiosa, e a paz vinha inconscientemente e alertando-me que o melhor caminho é evitar pensar demais. Sem maiores esforços. Sem mantras no estilo “tenha calma, paz, serenidade, a vida é bela”. Apenas uma evitação de uma torrente de pensamentos intrusos. Percebi que se acho algo difícil, daí sim a tendência geral é que esse algo se torne essencialmente difícil.
Ainda assim, houve um episódio que me deixou em alerta e risonha ao mesmo tempo: eu vivi um dilema durante a viagem até a universidade – se eu me mantinha com os fones de ouvido escutando uma boa musiquinha, ou se eu os tirava antes da chegada. O pensamento intruso que me veio foi o de um cenário catastrófico, talvez um dos mais tolamente catastróficos que já tive: minha mente dizia com todas as letras “se você descer com os fones de ouvido grudados na orelha, corre o risco de enroscar uma das mãos. O celular então cairá próximo a um dos pneus traseiros do ônibus; e ao tentar apanhá-lo, sua mão será esmagada pela roda”.
Foi tão rápido; tão passageiro. Mal tive tempo de reagir a uma invasão dessas. Nem mesmo parecia que um pensamento tão insano pudesse ser meu. Mas era. E então eu ri. Rio até agora. Rio e talvez até chore internamente.

A ansiedade é algo que pode minar todas as suas forças. Se você der o poder a ela, ela se transformará em um monstro maior do que você e engolirá todas as suas ações, todos os seus sonhos, toda a sua liberdade e afetará toda a sua percepção da realidade. E sabe qual é o pior detalhe disso tudo? Esse monstro é uma criação sua.