demônios habitam meu corpo
correm entre meus pulmões
escorregam pela minha espinha
bagunçam meu cérebro
brincam em meu coração

o que eu posso fazer contra?
nada

eu só posso conviver com a ardência em minha garganta;
a dor em meu peito;
o calor em meu sangue;
e todas as feridas em meu coração

já tentei retirá-los de dentro do meu ser
já tentei matá-los com remédios, ou até mesmo asfixiados
já tentei tirar minha própria vida com a esperança de que tudo acabasse;
com a esperança de que meu cérebro parasse de servir como tobogã;
que minhas artérias parassem de ser um escalador;
que meu pâncreas parasse de ser um escorregador;
queria que meus órgãos parassem de participar de todo aquele parquinho

pouco a pouco, aquelas brincadeirinhas dentro de mim se tornaram cruéis
eu não comia porque sabia que ia vomitar
eu não queria respirar porque meu peito ia doer
me senti sufocada, isolada, sem sequer uma luz
perdi quinze quilos em menos de um mês, minha família perguntou, eu não sabia responder

até que uma médica indagou
eu ainda não sabia responder
até uma simples pergunta sair dentre seus lábios
"sabe me dizer quando que tudo isso começou?"

e então eu lembrei...
...daquele sorriso lindo
...daquela voz grave e perfeita
...daquele perfume viciante
...daquele beijo gostoso
...daquele corpo maior e mais bonito que qualquer outro

me lembrei também de suas promessas
dos seus "eu te amo";
dos seus "eu nunca vou te deixar";

foi depois da sua morte que tudo começou
foi depois do seu ato desesperador que me senti morta
você não aguentou toda a dor, e eu compreendo isso
infelizmente meu amor não pode te manter vivo e forte

sorry...
você se foi e eu não pude nem te dizer adeus;
não pude nem te dar um beijo de despedida;
você apenas partiu para um lugar onde a dor não existe

e mesmo assim, ainda me sinto injustiçada
não pude te abraçar pela última vez;
não pude te provocar um sorriso involuntário uma última vez;
não pude sentir teu cheirinho uma última vez;
só pude ler sua carta, e isso tudo foi injusto