A cada mudança, minhas coisas mudam. Sou tão destrambelhada que sempre esqueço alguma coisa no lugar de onde eu parti. E um pouco desse “desapego” é devido a minha necessidade de substituição.

Comprar livros novos porque esqueci uma caixa recheada deles no apartamento antigo. Pintar desenhos novos por ter rasgado os antigos ao removê-los das paredes. Posicionar os móveis em lugares diferentes pra fingir que a vida também se tornou diferente.

Mas a cama sempre fica encostada à janela. Posso sentir o calor do ar vindo do lado de fora, ver as estrelas, acordar com o sol batendo no rosto, ouvir a chuva. Dela, eu fico olhando para a rua. E hoje a rua está horrível.

A calçada, encoberta por cacos de vidro, é só mais um caminho a se passar. Talvez descalço, e quem sabe sozinho.

Eu sempre fui um bicho do mato que deita no colo da madrugada e suplica por um afago. A madrugada é muda, cega e intangível. É uma folha em branco onde eu posso ilustrar e preencher com o que eu quiser. Com os meus choros, as músicas, os pensamentos [mesmo aqueles que martelaram a minha cabeça o dia inteiro] e as lembranças.

Eu olho para a rua e ela me olha de volta, pois estamos sós, eu e ela. Cada uma com a sua solidão.

E essa tormenta é só mais um caminho a se passar. Talvez despido, e com certeza sozinho.