O que sinto é apatia.
Não há ódio, ou indiferença, nenhum destes sentimentos desgastantes que as pessoas ousam nomear para justificar suas deficiências emocionais.
Este estado de constante apatia é ensurdecedor. Já parou para pensar que não há voz mais alta que a do silêncio? Pois eu defino minha apatia ao mundo e as coisas ao meu redor com esta interrogação. Lembro-me de já ter escrito algo assim em algum de meus aforismos poéticos; é um insistir em colher flores mortas, como se não esperasse nada além de pétalas murchas e crisálidas secas.
A única coisa que me desperta interesse, resvala próximo ao mítico, assombra os fracos de espírito que insistem em manchar sua existência, e protege à sua alcova os semblantes atormentados pelo mal deste século.
O meu amor repousa em leitos tranquilos feitos de um sonho que não posso traduzir em palavras.
Ele arrasta minha alma junto a sua, e se isinua para que meu peito rompa em chamas de desejo e eu não encontre meios de abandoná-lo.
Mas porquê esta apatia miserável a manchar meu coração?
Se sou babel e labirinto, não devia eu entrecortar este jardim que há muito fenece nas mãos cruéis do Absurdo Ditador?
Ah Deus! Como desejo esta brisa que sacode os cabelos do meu amor...
Eu não durmo a noite. Eu não acordo pelo dia.
Tudo o que vejo são espasmos do sonho envoltos na minha inutilidade.
Tudo o que vejo são os olhos do meu amor deixando escorrer sua juventude nas mãos deste Absurdo Ditador, desvanecendo como estas flores murchas, como estas crisálidas secas.