Meus avós moravam em um sitio enorme que ficava localizado nos arredores de uma floresta de milhares de hectares. Não era muito comum nós irmos visita-los, geralmente nós só o fazíamos em datas comemorativas. Eu adorava quando íamos vê-los. No sitio deles tinham muito espaço pra correr, muitas frutas pra comer e um lago incrível, mas também era um pouco perigoso. Meu avô sempre me alertava para não entrar na floresta. Ela era muito densa e eu podia acabar me perdendo. Eu sempre obedecia afinal eu meio que tinha medo da floresta. Ela era bem sinistra.

Uma dia, no feriado de natal, eu estava indo até o riacho brincar um pouco, quando avistei dois cães selvagens me encarando. Eles estavam bem no limite sitio/floresta e dispararam em minha direção logo que sentiram meu medo. Eu só saí correndo desesperadamente sem ver pra onde. Depois de alguns minutos de corrida olhei para trás e percebi duas coisas. Uma, eu havia os despistado. Não havia sinal dos cães. A segunda era que eu havia entrado na floresta e ido bem fundo pelo visto, pois por mais que eu tentasse não conseguia achar o caminho de volta. Então eu fiz o que qualquer criança faria. Chorei e gritei por meus pais.

Depois de mais ou menos duas horas, eu ainda estava chorando acuado numa arvore, quando escutei uma voz doce falando comigo.

- Calma, vai ficar tudo bem. – Ela disse. Ergui os olhos e a vi, era uma garota, aparentava ser uns dois anos mais velha do que eu. Usava roupas antigas pra época e estava extremamente pálida.

- Vem comigo! – Ela disse e estendeu a mão. – Eu segurei e juntos andamos de mãos dadas. Eu me sentia muito bem na presença dela. Trazia-me muita paz.

Após uns 30 minutos de caminhada estávamos fora da floresta. Já faz uns vinte anos que aquilo aconteceu, mas ainda lembro da forma como ela me abraçou e disse que estaria sempre olhando por mim. Eu não havia entendido na hora. Principalmente quando ela virou-se e voltou para dentro da floresta.

Corri até a casa dos meus avôs e quando cheguei lá todos se assustaram ao ver o meu estado.

Eu estava prestes a contar o que aconteceu quando algo chamou minha atenção. Pendurado na parede ao lado da foto da minha vó quando criança estava outro retrato da garota que havia me salvado.

- Vó, quem é aquela? – Perguntei apontando para o retrato.

- Essa era Lucy, minha irmã mais nova. Ela se perdeu na floresta quando era criança e nós nunca mais a encontramos. Isso já faz uns 50 anos. Por quê a pergunta?

Por Max Salomão